segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Flor da Pele



Flor da Pele
Zeca Baleiro

Ando tão à flor da pele
Qualquer beijo de novela
Me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar "flor na janela"
Me faz morrer
Ando tão à flor da pele
Meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele
Tem o fogo
Do juízo final...(2x)

Barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Bicho solto
Um cão sem dono
Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicido!

Ando tão à flor da pele
Qualquer beijo de novela
Me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar "flor na janela"
Me faz morrer
Ando tão à flor da pele
Meu desejo se confunde
Com a vontade de nem ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele
Tem o fogo
Do juízo final...

Barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Bicho solto
Um cão sem dono
Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicido!

Oh, sim!
Eu estou tão cansado
Mas não prá dizer
Que não acredito
Mais em você
Eu não preciso
De muito dinheiro
Graças a Deus!
Mas vou tomar
Aquele velho navio
Aquele velho navio!

Barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Bicho solto
Um cão sem dono
Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicído!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

se.mi.ó.ti.ca
sf (gr semeiotiké) 1 V semiologia. 2 Doutrina filosófica geral dos sinais e símbolos, especialmente das funções destes, tanto nas línguas naturais quanto nas artificialmente construídas; compreende três ramos: sintaxe, semântica e pragmática.
(Moderno Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa.)

Para mim, nada mais é que a metaforização dos elementos.


Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


(Pneumotórax, Manuel Bandeira in: Libertinagem, 1930.)


"A vida inteira que poderia ter sido e que não foi."

domingo, 20 de setembro de 2009



O luto é o processo que leva à conformidade para com a morte.
Quando a morte não é física, a conformação torna-se lenta e o embrutecimento comum.
Eu mato e morro. Aos poucos.
Tão lento luto.

domingo, 6 de setembro de 2009




"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."


Fernando Pessoa.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Drummond - da espera, da impotência e da esperança



ESSAS COISAS
Carlos Drummond de Andrade

“Você não está na idade
de sofrer por essas coisas.”

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?


Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?


***


SENTIMENTO DE MUNDO
Carlos Drummond de Andrade

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.


Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,

anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.


***


MÃOS DADAS
Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.



***

MUNDO GRANDE
Carlos Drummond de Andrade

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.

Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
Por isso me grito,
Por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
Preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.

Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes com é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso

Num só peito de homem...sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
Tão calma. Não anuncia nada.

Entretanto escorre nas mãos,
Tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
Como é triste ignorar certas coisas.
( Na solidão de indivíduo
Desaprendi a linguagem
Com que os homens se comunicam. )


Outrora escutei os anjos,
As sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Outrora viajei
Países imaginários, fáceis de habitar,
Ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
Trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
Entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.

- Ó vida futura! Nós te criaremos.

sábado, 25 de julho de 2009

Mesóclise

Dar-te-ei beijinhos - disse ele, incauto,
Ignorando a razão de meu apreço por essa colocação.
- Não as gosto só por serem elegantes e exigirem cuidado.
Que fique claro!

As mesóclises são poéticas por natureza.
(Mais ainda no Futuro do Presente)
"Dar-te-ei beijinhos". Te darei beijinhos.
O que muda? Semanticamente, nada.
Assim, são poesia concreta. É um entrelaçar de palavras.
O verbo no infinitivo, os pronomes oblíquos e as terminações do futuro.
Futuro do presente ou do passado, mas ainda assim futuro.
Um futuro que se emaranha como o entrelaçar de dedos afoitos...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mulheres

Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.

Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no
[morro atrás de casa e tinham cara de pau).


(Manuel Bandeira in: Libertinagem.)



Alma Nova


"Sempre que te vejo assim
Linda, nua
E um pouco nervosa
Minha velha alma
Cria alma nova
Quer voar pela boca
Quer sair por aí...

E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Ainda não é hora
De partir...

Então ficamos
Minha alma e eu
Olhando o corpo teu
Sem entender...

Como é que a alma
Entra nessa história
Afinal o amor
É tão carnal...

Eu bem que tento
Tento entender
Mas a minha alma
Não quer nem saber
Só quer entrar em você
Como tantas vezes
Já me viu fazer...

E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Você tem muito
Que aprender..."


(Zeca Baleiro)



Oscar Wilde falava sobre a utilidade da arte no prefácio de O Retrato de Dorian Gray,: "Aqueles que encontram feias significações nas coisas belas são corruptos sem serem encantadores. É um defeito. Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança.
São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
(...)
Pode-se perdoar a um homem o fazer uma coisa útil, enquanto ele a não admira. A única desculpa que merece quem faz uma coisa inútil é admirá-la intensamente.Toda a arte é absolutamente inútil."

Assim, o que faz de algo uma obra de arte é a sua capacidade de inspirar sensações no homem, apenas com sua apreciação. As sensações são formadas através das portas que de acesso do mundo exterior para o mundo interior do indivíduo, os sentidos: tato, olfato, paladar, visão e audição; Por sua vez e através dos sentidos o ser humano é capaz de associar a obra com a qual está tendo contato com alguma lembrança, anseio, motivação ou até conhecimento e então criar a sensação que pode beirar o mais alto nível de excitação ou a mais apática reação, dependendo do nível de semelhença obtido nessa associação.
É através dos sentidos que as relações interpessoais podem ou não dar certo; afinal, é por meio deles que a comunicação - nas suas mais diferentes maneiras - se dá.
A pessoa amada é uma obra de arte.
Ama-se quando se admira - aliás, o amor não sobrevive sem admiração; Ele só se dá quando os cinco sentidos se encontram sintonicamente. Quando a visão que a outra pessoa te oferece é suave e harmônica, quando suas elucidações são, de um modo geral, inteligentes e coerentes e as palavras escolhidas são as que melhor se encaixam naquele contexto, de modo que naquela comparação - a mesma que ocorre na contemplação de uma obra de arte - chegue-se à certeza de que há muitas coisas em comum no modo de pensar. É quando o contato entre os corpos, o tatear a pele, causa impulsos elétricos nos sistema nervoso epitelial, causando uma descarga imediata de adrenalina. O cheiro do outro é capaz de atrair e de causar a mais profunda sensação de paz e, por fim, quando não se quer afastar o gosto da pessoa amada - gosto este, que está associada aos outros sentidos, o cheiro e o contato com os fluidos corpóreos (ou humores, como simplificaria Oswald em seu famoso poema-pílula: "Amor").
O amor é contemplativo e, sobretudo, carnal. Muito embora não seja possível alimentá-lo sem o contato, quando os cinco sentidos se encontram o Amor é capaz de criar um outro sentido: o sexto; a intuição, a empatia. A empatia é da alma. Só se dá quando os cinco sentidos humanos estão em equilibrio e sintonia; É quando corpo e alma se transformam em uma única coisa. É o Eros, Philia e Ágape juntos.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Solidão é uma ilha com saudade de barco. Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue. Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo. Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco. Pouco é menos da metade. Muito é quando os dedos da mão não são suficientes. Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça. Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego. Agonia é quando o maestro de você se perde completamente. Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento. Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa. Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára. Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido. Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista. Renúncia é um não que não queria ser ele. Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe. Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente. Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora. Orgulho é uma guarita entre você e o da frente. Ansiedade é quando sempre faltam 5 minutos para o que quer que seja. Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada em especial. Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento. Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado. Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes. Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração. Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro... Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma. Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros. Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho. Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia. Perdão é quando o Natal acontece em outra ápoca do ano. Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo. Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa. Desatino é um desataque de prudência. Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo. Lucidez é um acesso de loucura ao contrário. Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato. Emoção é um tango que ainda não foi feito. Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele. Desejo é uma boca com sede. Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra. Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado.

FALCÃO, A. Mania de Explicação. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001.

domingo, 21 de junho de 2009



Árvore Verde

Árvore verde,
Meu pensamento
Em ti se perde.
Ver é dormir
Neste momento.

Que bom não ser
'Stando acordado !
Também em mim enverdecer
Em folhas dado !

Tremulamente
Sentir no corpo
Brisa na alma !
Não ser quem sente,
Mas tem a calma.

Eu tinha um sonho
Que me encantava.
Se a manhã vinha,
Como eu a odiava !

Volvia a noite,
E o sonho a mim.
Era o meu lar,
Minha alma afim.

Depois perdi-o.
Lembro ? Quem dera !
Se eu nunca soube
O que ele era.


(Fernando Pessoa - Poesias Inéditas)

quinta-feira, 7 de maio de 2009



Universo-perverso fugaz!
Paz?
Cansaço
por caminhar com sede, driblar a rede,
buscar o abraço.

Alma minha
acalma-te sozinha
brincas nas cinzas do destino
trocando olhares
Luz.
N(o)us.
 

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